Crônica do Pássaro de Corda é o romance mais ambicioso de Haruki Murakami: a história de Toru Okada, um homem comum que perde o gato, depois a esposa, e desce a um poço vazio para reencontrar a si mesmo. Publicado como trilogia entre 1994 e 1995 e reunido depois em volume único de cerca de 800 páginas, é considerado por leitores e crítica a obra-prima do autor japonês.

 

Se você chegou até aqui tentando decidir se encara essas 800 páginas, a resposta curta é sim. A longa vem a seguir.

 

Do que trata Crônica do Pássaro de Corda

Toru Okada é um sujeito sem grandes ambições. Trabalha como faz-tudo em um escritório de advocacia, mora em uma casa cedida por um tio e é casado com Kumiko, funcionária de uma revista de moda e principal provedora do casal. A vida conjugal dos dois é morna, funcional, sem sobressaltos. Há também um gato, batizado Noboru Wataya — o mesmo nome do irmão desprezível de Kumiko, detalhe que Murakami não deixa passar por acaso.

A rotina começa a rachar em duas frentes. Toru encontra um frasco de perfume entre as coisas da esposa e passa a suspeitar de uma traição. Ao mesmo tempo, o gato some, e Kumiko pede que ele o procure.

 

É durante essa busca pelo bairro que Toru entra em uma casa abandonada e encontra um poço vazio. Sente uma necessidade quase física de descer até aquela escuridão. Quando volta para casa, Kumiko desapareceu sem deixar rastro.

 

O poço vazio: a metáfora central do livro

O poço é o coração simbólico da narrativa. No escuro e no silêncio absolutos, Toru encontra a única condição em que consegue pensar — e o romance inteiro funciona como um quebra-cabeça em que Murakami entrega peças soltas, uma de cada vez, para que o leitor monte junto com o protagonista.

O que Toru descobre lá embaixo não é onde está Kumiko. É quem ele próprio é. Anestesiado pela rotina e pela falta de perspectiva, ele estava vivendo em um estado letárgico muito antes de a esposa sumir. O desaparecimento apenas trouxe o problema à superfície.

 

O fechamento do ciclo, no fim da narrativa, é sinalizado pela desobstrução do fluxo de água do poço. Corre água onde antes havia só escuridão seca. Difícil imaginar imagem mais precisa para um despertar.

 

Superar não é voltar ao que era antes

Aqui está a tese mais interessante do livro, e ela é contraintuitiva.

 

Toru não busca, em nenhum momento, recuperar a vida que tinha. Ele aprende a conviver com a dor do sumiço de Kumiko — uma dor que passa a integrar sua identidade em vez de ser extirpada dela. Murakami sugere que a superação não acontece apesar do sofrimento, mas através dele. Só abraçando a perda é possível seguir carregando o próprio nome.

 

Os personagens secundários e a geografia da dor

Nenhum coadjuvante em Crônica do Pássaro de Corda está ali só para movimentar o enredo. Cada um carrega um trauma próprio e um processo de cura em curso:

  • May Kasahara — adolescente vizinha de Toru, corroída pela culpa pela morte do namorado em um acidente de carro.
  • Creta Kano — sobreviveu à violência física de Noboru Wataya, o irmão de Kumiko.
  • Tenente Mamiya — testemunhou atrocidades durante a guerra na Manchúria, na Segunda Guerra Mundial, no trecho mais brutal e mais assombroso do romance.

 

Juntos, eles formam uma espécie de mapa das formas possíveis de dano humano. E é conversando com eles que Toru entende o próprio.

 

Onde este livro se encaixa na obra de Murakami

Quem já leu o autor vai reconhecer a arquitetura. Em Kafka à Beira-mar, o protagonista atravessa um portal que o leva a uma cabana na floresta, onde compreende os próprios sentimentos e fecha um ciclo. A estrutura é a mesma: um espaço de suspensão da realidade, um mergulho interior, um retorno transformado.

 

Crônica do Pássaro de Corda também reúne os temas recorrentes da bibliografia de Murakami — gatos, música clássica e jazz, solidão, traição, sexo, autoconhecimento — mas aqui eles aparecem entrelaçados com uma densidade que os outros livros não alcançam. É a mistura entre o mundano e o fantástico levada ao ponto máximo: acessível na superfície, profundamente filosófica embaixo.